Superqualificados e frustrados com a carreira

21/03/2017

Por: Rafael Souto

Tenho observado um número cada vez maior de profissionais com boa formação e experiência frustrados com sua carreira e o reconhecimento no mercado de trabalho.

Um dos temas de maior insatisfação é a relação entre investimento acadêmico e crescimento profissional.

Vários estudos mostram que o investimento em educação traz resultados positivos para o desenvolvimento da carreira profissional. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que cada ano de estudo concluído chega a representar 15% de incremento salarial.

Em um levantamento realizado pela minha equipe, em 2015, com 400 executivos, verificamos que os profissionais com cursos de mestrado e doutorado tinham ganhos, em média, 27,2% superiores.

A questão que precisamos enfrentar e que me parece estar no centro da frustração é o tempo de retorno desses cursos para a carreira. O resultado não é rápido. As empresas não concedem aumento porque alguém terminou uma pós-graduação. A formação dá melhor preparação para realizar atividades. O reconhecimento e o impacto na carreira vêm com o passar dos anos. O profissional ganha musculatura na carreira e pode produzir melhores resultados. A consequência desse alto desempenho poderá ser um novo cargo ou aumento de salário.

Outro tema de frustração são os cursos internacionais. Fazer uma formação no exterior é, sem dúvida, um investimento relevante na carreira. Residir por um período em outro país é um diferencial para a trajetória profissional. A visão multicultural e o domínio de idiomas também chegam com a bagagem dessa experiência.

Novamente o dilema é o tempo de retorno. Muitos esperam ser recebidos no desembarque do aeroporto com um grande emprego e um salário robusto. Visão equivocada. A vivência internacional é um dos elementos mais valorizados na carreira, mas o resultado não é imediato.

A frustração está na expectativa de retorno no curto prazo. Construir uma formação robusta não serve para embelezar o currículo, e sim para trazer conhecimentos que possam gerar resultados.

Outro efeito colateral é a ideia de que o conhecimento acadêmico sólido é por si só fator de crescimento. Sabemos que a carreira se desenvolve com um conjunto de elementos, entre eles, habilidades sociais e aspectos emocionais.

Outro risco que amplia o drama dos superqualificados é a arrogância. Achar que a formação diferenciada garante emprego rápido e com o melhor salário possível não se mostra uma estratégia vencedora. Ao contrário, a humildade para iniciar em uma empresa ou recomeçar após uma demissão é fundamental. Novamente a carga robusta de conhecimento poderá triunfar ao longo do tempo.

A experiência profissional também pode ser um drama dos mais qualificados. Aqueles executivos mais experientes que não se sujeitam a salários inferiores quando estão desempregados ou que não querem reduzir o cargo que ocupavam. Ficam paralisados no status do cartão de visitas que ostentavam. Reclamam que sua qualificação não tem espaço no mercado e transferem a crítica para as empresas, quando na verdade incorrem em um erro estratégico de posicionamento.

Por outro lado, muitas empresas têm medo dos profissionais muito preparados e não aceitam contratá-los. É a famosa frase no desfecho de um processo seletivo: “você é muito qualificado para a posição”. Essas organizações têm receio de que quando a economia se fortalecer irão perder o profissional. Em vez de usar o talento disponível para construir uma trilha de crescimento, preferem a mediocridade. Falam de inovação, mas não têm nenhuma ousadia para contratar. São empresas destinadas a fazer sempre da mesma forma e que, certamente, pagarão um preço alto pela inércia e falta de criatividade para lidar com um mundo de negócios em rápida transformação.

Ainda estamos na creche quando o tema é a gestão de carreiras. De um lado muitos profissionais carregando fantasias sobre reconhecimento e evolução no trabalho. 

No outro polo, líderes pouco preparados para dialogar e com uma visão ultrapassada sobre desenvolvimento profissional. 

A caminhada é investirmos em educação para a carreira para que essas questões sejam discutidas e as distancias reduzidas.

(*) Rafael Souto é sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado

 

Fonte: Valor Econômico