Mais que mandar, é preciso convencer.

17/12/2014

Mais que mandar, é preciso convencer.


Cursar uma boa faculdade, fazer pós-graduação ou MBA, dominar uma língua estrangeira e acumular experiências positivas em boas empresas são informações importantes no currículo de uma pessoa que busca recolocação no mercado de trabalho. Mas não bastam. As empresas hoje querem mais.

Os aspectos comportamentais e psicológicos pesam muito e podem ser decisivos na hora de a companhia optar por um candidato. Resiliência, liderança e flexibilidade são alguns dos pontos que garantem que o futuro funcionário está pronto para enfrentar um ambiente competitivo e garantir resultados.

O desafio de se manter atualizado no mundo corporativo pode ser comparado ao do artista que precisa equilibrar vários pratos girando nas mãos ao mesmo tempo que ostenta um sorriso para a plateia.

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"O contexto é de constante mudança e transformação. Saber navegar em um mercado extremamente dinâmico exige perfis cada vez mais resilientes, criativos e inovadores, com rápida capacidade de adaptação e tomada de decisão", afirma o diretor geral de recursos humanos da L′Oréal, Fábio Rose.

Para ele, é fundamental que o candidato apresente uma visão estratégica e consiga integrar realidades complexas utilizando uma visão sistêmica e aprofundada. "Precisamos de líderes que tenham todas estas características, porque são eles que estarão à frente das mudanças".

A necessidade da L′Oréal é muito parecida com a de outras grandes empresas, independentemente da área em que elas atuam. Os executivos que são cobiçados hoje no mercado devem saber inspirar as pessoas e ter influência sobre elas - ou melhor, devem conquistá-las.

"Hoje em dia não basta ser ′chefe′ apenas no nome. Os colaboradores, principalmente da geração Y, precisam admirar quem está acima deles na empresa", diz a gerente de recursos humanos da Mexichem Brasil, Adriana Garcia.

A visão global, adquirida com experiências profissionais ou acadêmicas no exterior, além do respeito à diversidade de pensamentos, também são importantes para o executivo. Não é fácil achar uma pessoa que reúna tantas exigências. Mas o mercado está atento às mudanças e sabe apontar quais são elas.

Uma pesquisa feita pela Deloitte e divulgada em agosto, intitulada Global Human Capital Trends 2014 e na qual foram ouvidos 2,5 mil executivos de RH em 90 países, mostra que 86% dos entrevistados apontam a liderança como a maior preocupação. "O líder deve ter a capacidade de mobilizar pessoas numa direção para atingir determinado resultado. Trata-se da capacidade do indivíduo de se adaptar às emoções do outro", afirma João Marcelo Furlan, vice-presidente de expansão e desenvolvimento de regionais da Associação Brasileira de Recursos Humanos - São Paulo (ABRH-SP) e diretor executivo da Enora Leaders, empresa de desenvolvimento organizacional e treinamento.

É exatamente a resiliência a principal característica que o executivo deve apresentar, na opinião da gestora de RH da Puket, Andreia Rolim. Se uma pessoa sofrer uma grande pressão, se controlar e voltar ao estado normal num curto espaço de tempo pode considerar que terá longevidade nas empresas.

"As mudanças são rápidas e o ambiente, competitivo. Conheço profissionais que não conseguiram lidar com esse cenário e tiveram até problemas de saúde", afirma Andreia.

A retenção e o engajamento são priorizados por 79% dos que participaram da pesquisa da Deloitte, temas que aparecem em segundo lugar do levantamento. "As gerações X e Y gostam de desafios. Elas têm necessidade de mudança e se motivam com isso. O líder precisa estar à frente", ressalta Furlan.

Já o sócio-líder da área de capital humano da Deloitte, Henri Vahdat, acrescenta que os colaboradores apreciam um ambiente que permita trabalhar em outras partes do mundo e que ofereça treinamento constante. "O executivo precisa mostrar coerência entre o seu discurso e suas ações. A equipe quer ter orgulho da companhia", afirma.

Por seu lado, Idathy Aparecida Munhoz, diretora de desenvolvimento humano e organizacional da Editora FTD, usa uma expressão incomum para destacar o principal ponto no perfil do profissional: ele precisa saber "ler" pessoas, como funcionários, fornecedores e clientes. Desta forma será possível registrar os resultados esperados, não apenas com foco nas metas, mas também levando em conta a gestão de pessoas. "Um verdadeiro líder entende a necessidade da equipe, tem o dom de ouvir. O desenvolvimento do lado humano hoje é imprescindível".

O ponto que ficou em terceiro lugar da pesquisa, para 77% dos que responderam as questões - a requalificação da função do RH da empresa - mostra que o departamento precisa ser um parceiro de negócios. "O RH deve ser encarado com a alma da companhia, a área que faz os caminhos da carreira e cria e cultiva um bom ambiente de trabalho", aponta Vahdat.

A adaptação aos valores da empresa é destacada por quem está avaliando o profissional. A empresa sueca Volvo, por exemplo, faz questão de manter a sua filosofia no Brasil. Por aqui é comum, há vários anos, que o executivo fique trabalhando na empresa várias horas depois do expediente. A Volvo defende o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. "O ideal é que o executivo consiga otimizar o tempo em que está na companhia e consiga passar tempo com a família e os amigos e se divertir. O líder precisa ficar atento a isso. É necessário que o executivo traga resultados, mas que atue dentro da jornada", diz a diretora de recursos humanos e responsabilidade social da Volvo Cars Brasil, Eliane Trinca.

Em resumo, o perfil do profissional em alta reúne boa formação acadêmica, experiência profissional, o conhecimento de línguas estrangeiras e a habilidade de lidar e gerir pessoas. As metas devem ser alcançadas com a participação de toda a equipe, gerida por esse profissional que, acima de tudo, sabe se colocar no lugar do outro.

 

 

Fonte: Valor Econômico, por Neide Martingo,